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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Crônica de Luiz Felipe Nunes

Nas cifras sentimentais: ensino ou aprendo?

Me deparei em certo lugar, certa vez, com a seguinte pergunta: “O que você faria se um aluno lhe oferecesse dinheiro por sua aula ter sido boa?”. Em minha experiência, fiquei um pouco na dúvida, mas decidi, por fim, que não aceitaria. Mesmo com tantas críticas sobre o salário de um professor, eu ainda devia manter o que considero minha dignidade.
No dia a dia, todos sabem, o trabalho de um professor não é bolinho. Vemos na TV índices educacionais positivos, nos querendo empurrar que a Educação do País está melhorando...
Não quero, aqui, julgar a Educação do País, se o que a TV diz é verdade ou mentira. Por isso vou falar de um microcosmo da educação: a que sou personagem.
Sou professora e meus alunos são especiais – não só porque têm deficiência, mas porque possuem uma sensibilidade mágica de ver e viver a vida.
São diferentes uns dos outros, a começar pelas patologias – mas alguma coisa fica em comum: tão longe, mas tão perto. Percebo que a afetividade, para essas crianças, parece ser o único caminho de compreensão e comunicação.
A sociedade, normalmente, as veem com piedade, pedintes de caridade; pessoas especiais que requerem direitos e cuidados especiais.
Para mim é difícil vê-las assim. Delas já recebi tantas lições de ternura, que acho serem, simplesmente, boas, prazerosas; não são anjos ou mártires com a pureza dos inocentes, são crianças somente boas, porque para serem más exige-se uma sofisticação mental da qual muitas não alcançam.
É um jeito de ser meio ‘Peter Pan’, daquele que não cresce nunca e faz pose de campeão cada vez que sobe no palco e recebe aplausos (isso mesmo, eles se apresentam artisticamente!); ou então o super-heroi que nos prende na parede com suas poderosas teias. Tem também o jogador de futebol, com seus gols de levantar a torcida, mesmo que ele nunca tenha conseguido chutar uma bola sozinho; os traçados trêmulos das aula de pintura feitos por mãos inseguras, porém não menos talentosas e sem esquecer – é claro – da doce bailarina que transfere para os braços toda a força que suas pernas não podem despender.
Outro dia, estava em minha sala preenchendo papeis quando ouvi alguns barulhos. Olhei e vi que eram duas pequeninas se escondendo atrás da porta. Continuei escrevendo, me fazendo surda – assim como elas – que não tinham a noção de que o ruído de seus passos e risos delatavam seus planos de me assustar. Permaneci distraída e zás! Os risos mais alegres que pude ouvir, risos que vinham de uma felicidade imensa de gostarem de ser o que são. As mãozinhas tão pequeninas que, sorrateiras, faziam milhões de sinais em meio às caras e bocas da expressão pura de criança.
Muitos desses petizes mal conseguem escrever uma frase com preposições e conjunções corretamente, nem calcular o mínimo múltiplo comum de uma operação matemática.
Na verdade, eles conseguem fazer poucas coisas com independência, mas tudo aquilo que fazem é cheio de intensidade e emoção. Realmente, são muito diferentes de nós que podemos realizar muitas coisas, quase sempre ao mesmo tempo. Quanto à emoção e à intensidade... Bom, melhor deixar pra lá – hoje em dia não sobra tempo para isso.
Eu, como professora, não consigo definir se ensino mais do que aprendo. Portanto, se algum desses alunos me oferecesse dinheiro pela minha ‘boa’ aula, eu pediria para descontar na dívida que passei a ter com eles.

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A crônica foi Menção Honrosa na mesma edição do Mapa Cultural Paulista no mesmo concurso das fotografias Queima do Alho, 2009/2010.
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